[Mondo Fashion] Gucci

Uma das marcas de luxo mais valiosas do mundo, a grife italiana começou como um negócio familiar de malas e acessórios de couro artesanais, em Florença, e passou por algumas das maiores transformações de estilo e gestão que o mundo da moda testemunhou, permanecendo sempre no topo das tendências.

Texto Graziela Canella :: Concepção Andrea Tavares

 

História italiana

O homem, a lenda: Guccio Gucci

Nascido em 1881, o jovem italiano Guccio Gucci, filho de um artesão de origem humilde, trabalhou como carregador de bagagens e ascensorista em hotéis de luxo em Paris e Londres. Foi nesse período, na virada do século, que Gucci se encantou pelas malas sofisticadas carregadas pelos hóspedes, com brasões de famílias nobres.

Em 1921, de volta a Florença, juntou suas economias (cerca de 30 mil liras, na época) para abrir uma pequena loja de acessórios de viagem. Ali, vendia malas e valises de couro de alta qualidade, feitos pelos melhores artesãos da cidade – incluindo membros de sua própria família – atraindo aos poucos uma clientela fiel entre membros da alta burguesia e da nobreza florentina. Com as vendas, foi aos poucos investindo na expansão de uma oficina nos fundos da loja e passou a produzir bolsas, sapatos, luvas e cintos.

Em 1937, já com clientela internacional, Guccio Gucci mudou a empresa para um espaço maior em Lungarno Guicciardini, outro bairro da cidade. Nesse período, começou a utilizar elementos de inspiração equestre como marca registrada de seus produtos, tais quais estribos e franjas. Em 1938, Gucci inaugurou a primeira loja em Roma, na sofisticada Via Condotti, atraindo ainda mais clientes abastados e famosos. No ano seguinte, os filhos de Guccio (Aldo, Vasco e Ugo) ingressaram no negócio – o quarto filho, Rodolfo, passou a integrar a empresa somente em 1951.

Luxo artesanal: a oficina de Guccio Gucci

 

Frenesi: abertura da primeira loja Gucci em Nova York, em 1953

O começo: a loja em Florença, ainda com “G. Gucci” no letreiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nobres e sofisticados: a experiência em hotéis de luxo atraiu a atenção de Gucci para o estilo das malas dos hóspedes

 

Os ícones

Em 1947, a Gucci lançou a Bamboo, modelo de bolsa que se tornaria um dos grandes ícones da marca até os dias de hoje, com alça feita de bambu. No final da mesma década, a grife adotou o logotipo com os “G” entrelaçados, usado em fechos, detalhes de metal e também em monogramas.

Em 1953, a marca lançou um novo ícone, o Horsebit, calçado estilo mocassim com fivela de metal em forma de bridão (um sistema de freio na equitação), que também se mantém um clássico com o passar do tempo, em diferentes modelos, versões e materiais. No mesmo ano, a marca também incorporou detalhes nas cores verde e vermelho, que se tornaram tradição.

Esses produtos foram adotados por celebridades da época como Sophia Loren, Ingrid Bergman e o casal John e Jacqueline Kennedy, que inspirou um modelo de bolsa nos anos 60. Outra musa daquele período foi Grace Kelly, que teve em sua homenagem uma estampa floral, chamada “Flora”, aplicada em um lenço de seda, um dos acessórios favoritos da princesa. Outros nomes como Peter Sellers e Audrey Hepburn também contribuíram para que a marca se tornasse símbolo de bom gosto entre famosos e seus fãs.

No museu: bolsa Bamboo, original de 1960

Letras entrelaçadas: o famoso monograma da marca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Influenciadora: Sophia Loren na loja de Roma na década de 70

Dose dupla: no clássico mocassim, a referência equestre e as faixas verde e vermelha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolsa Jackie: Jacqueline Kennedy e o acessório criado em sua homenagem

 

 

Origem floral: lenço (à esquerda) criado especialmente em 1966 para Grace Kelly (à direita)

 

 

 

 

 

 

 

A primeira expansão

Após a morte de Guccio Gucci, em 1953, os quatro filhos seguiram no comando dos negócios e conduziram a marca para uma bem-sucedida expansão internacional, com lojas nos Estados Unidos e na Ásia. Na Europa, fora da Itália, a família abriu butiques em Londres e Paris, no final dos anos 60. Em 1974, a marca contava com 14 lojas e 46 franquias em todo o mundo, com aberturas internacionais conduzidas especialmente por Aldo Gucci, preparando o terreno para a terceira geração da família.

Passarela: desfile em Florença, em 1962

 

Sob nova direção

O império da moda fundado por Guccio Gucci começou a enfrentar problemas na década de 80, sob o comando de seus herdeiros. Desentendimentos e intrigas entre os Gucci colaboraram para que a casa entrasse em um período de inércia criativa, além de problemas financeiros e a frequente citação da palavra “falência” – ou seja, a Gucci ficou em baixa por um bom tempo.

Batalhas judiciais e acusação de fraude fiscal foram alguns dos problemas que levaram a mudanças no comando da empresa. Com a saída de Aldo Gucci dos negócios, em 1989, a empresa de investimentos árabe Investcorp adquiriu 50% da marca. No mesmo ano, o italiano Domenico De Sole, funcionário de um dos escritórios de advocacia norte-americanos que prestava serviço à empresa, foi contratado para moderar as divergências entre os membros da família.

Em 1993, Maurizio Gucci, último herdeiro do grupo a permanecer na sociedade, vendeu sua participação por não se entender com os investidores. Foi então que De Sole assumiu a direção e começou o que seria uma revolução na marca. Mudou sua sede de Milão para Casellina, perto de Florença, e nomeou o norte-americano Tom Ford, que já integrava a equipe de estilo desde 1990, como diretor criativo.

Mas a participação de Maurizio Gucci não se limitou a uma gestão conflituosa: ganhou pitadas de trama de romance policial. Em 1995, foi assassinado quando chegava a seu escritório, em Milão, a mando de sua ex-mulher, Patrizia Reggiani. Anos depois, Patrizia, condenada a 26 anos, pediu permissão à Justiça para cumprir a sentença em prisão domiciliar.

Misteriosamente, todos os funcionários que trabalhavam na papelada do caso foram atacados por sintomas como irritação na garganta, pele rachada e enjoos. A doença desconhecida foi apelidada de “a maldição de Maurizio”, pois muitos acreditavam que se tratava de uma manobra sobrenatural do fantasma do executivo para impedir que sua ex-mulher saísse da cadeia. O processo foi abandonado, já que todos os funcionários da justiça milanesa se recusaram a mexer nos papéis da apelação.

 

No declínio: anúncios de óculos e relógios, no início da década de 90

 

 

 

 

 

 

 

A era Ford

O designer texano Tom Ford comandou o estilo da Gucci de 1994 a 2004, quando ele e Domenico De Sole deixaram a empresa. Sua gestão transformou não somente a Gucci – que viu as vendas aumentarem 90% assim que Ford tomou as rédeas da criação – mas também a indústria da moda, que percebeu o valor de um estilista contratado nos negócios de uma grife. Além do relançamento de clássicos como as bolsas com alça de bambu e mocassins de bridão, Ford lançou a bolsa Horsebit, sucesso entre as celebridades. A marca assumiu uma imagem de ousadia e luxúria, tão pertinente àquela altura do mundo, incorporada por ícones como Madonna e Tina Turner, além de campanhas para lá de provocativas.

Era Ford: ousadia e sex appeal ditavam a regra de estilo na época do designer norte-americano

 

Madonna: look icônico de Gucci para o MTV Music Awards, em 1995

Horsebit: a bolsa com bridão foi a it-bag da fase de Ford

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A despedida: Tom Ford no final de seu último desfile pela Gucci

 

Duelo de gigantes

No ano 2000, a empresa pertencia a um grupo de acionistas, incluindo dois pesos pesados do mercado de luxo, os empresários Bernard Arnault (dono do conglomerado LVMH) e François-Henri Pinault (então dono do grupo PPR, ou Pinault-Printemps-Redoute, atualmente intitulado Kering).

Temendo a hegemonia de Arnault na indústria da moda, Domenico De Sole e Tom Ford favoreceram Pinault em uma verdadeira batalha pelo comando da grife. Ironicamente, foi a própria PPR que, poucos anos depois, negou a Ford o controle criativo que o estilista tentou proteger. Como a saída da dupla foi pouco amigável, por muitos anos a influência do estilista foi apagada da história da grife, inclusive no próprio museu Gucci, inaugurado em Florença em 2011. Somente cinco anos mais tarde, por iniciativa do atual diretor criativo, Alessandro Michele, o espaço ganhou duas novas salas inteiramente dedicadas ao genial legado de Tom Ford.

Ala Tom Ford: Museu Gucci recebeu tributo ao criador texano em 2016

 

Frida Giannini: o reinado das flores

Após a saída de Ford e De Sole, a direção criativa foi entregue à romana Frida Giannini. Com alto investimento da PPR na criação de produtos e campanhas, a marca se manteve em alta no mercado e também em editoriais de moda. Na contramão do império de luxúria e ousadia de Tom Ford, Frida voltou às raízes da marca por outros caminhos e resgatou as estampas florais que fizeram sucesso nos lenços de Grace Kelly.

O primeiro tiro certeiro da designer foi o lançamento da linha Flora, com delicadas estampas florais aplicadas em roupas, acessórios, sapatos e it-bags, que não ganhou grandes elogios da imprensa, mas obteve enorme sucesso comercial. Em 2009, a empresa nomeou um novo CEO, Patrizio di Marco, executivo que havia tido sucesso revitalizando os negócios da Bottega Veneta e que, anos mais tarde, viria a casar-se com Frida. Juntos, anunciaram a saída da Gucci em dezembro de 2014.

As bolsas Flora: estampa-símbolo da gestão criativa de Frida Giannini

Sucesso comercial: campanha com a bolsa Flora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amor no trabalho: Frida Giannini e Patrizio di Marco

 

Alessandro Michele: o estilo de hoje

Alessandro Michele: responsável pelo sucesso atual da grife

Desde a saída de Frida Giannini, a direção criativa da Gucci tem mais um nome italiano: Alessandro Michele. Responsável pela mais recente renovação e transformação de imagem da marca, o premiado estilista criou para a grife um universo romântico, retrô, colorido, kitsch e genuinamente exuberante, com pinceladas de humor e realismo fantástico nas campanhas, frequentemente estreladas por animais. Referências clássicas e excessos do luxo se misturam a elementos de sportswear e cultura pop atuais, formando um combo que caiu no gosto dos fashionistas, permitindo à Gucci manter-se mais uma vez no topo.

 

 

 

 

 

Extravagância: óculos de Alessandro Michele nos bastidores do desfile Cruise Collection 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nova fase: o romantismo dramático de Alessandro Michele

 

 

 

 

Gucci em números

De acordo com um estudo publicado em 2016, a Gucci é a terceira marca de luxo mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 12,5 bilhões, perdendo apenas para Louis Vuitton e Hermès – no quesito vendas, a Gucci fica em segundo lugar, atrás apenas da Louis Vuitton. A grife opera 520 lojas próprias ao redor do mundo, além de franquias e pontos de venda em lojas de departamentos e multimarcas.

Depois da repaginação comandada por Alessandro Michele, registrou receita de € 4,3 milhões em 2016. Este ano, o salto foi ainda maior: aumento de 48,3% nas vendas no primeiro trimestre, ultrapassando a Saint Laurent, até então principal faturamento do grupo Kering. Mantém lojas gigantescas em cidades como Moscou, Milão, Nova Déli, Seul e Tóquio, mas seu maior complexo comercial fica em Nova York, com mais de 14 mil metros quadrados em três andares.

Varejo com arte: a loja-conceito de Nova York, com mais de 14 mil metros quadrados, coberta por intervenção artística, em 201

 

Novos rumos nos óculos

Depois de uma parceria de mais de 25 anos com a Safilo, em 2015, o grupo Kering anunciou um novo modelo de negócio no qual assumiria a produção e a distribuição de todas as linhas de eyewear de seu portfólio de marcas, criando assim uma subsidiária de óculos, a Kering Eyewear. A mudança repercutiu no Brasil em junho, quando a GO Eyewear fechou uma parceria estratégica para distribuição exclusiva das grifes no país e uma das primeiras marcas a desembarcar suas coleções de óculos por aqui foi a Gucci.

No estilo, a irreverência de Alessandro Michele também está presente nas armações de receituário e nos óculos solares, com tamanhos máxi, formatos vintage, além de cores, detalhes e designs cheios de personalidade para homens e mulheres.

 

Gucci modelo GG0180O 001

 

Gucci modelo GG0226S 005

 

Gucci modelo GG0201O 003

 

Gucci modelo GG0200S 001

 

Gucci modelo GG0213O 002

 

Gucci modelo GG0208S 002

 

Gucci modelo GG0209O 005

 

Gucci modelo GG0214S 002

 

Gucci modelo GG0221O 002

 

Gucci modelo GG0216S 005

 

Gucci modelo GG0183O 008

 

Pronúncia

“GÚ-tchi”. Por favor, nada de achar que os dois “C” soam como dois “S” – portanto, esqueça definitivamente o “Gussi”. Em italiano, os dois “C” soam como “-tch”, tal qual o bordão usado pelos gaúchos (“tchê”).

 

Tradição: anúncio de 2011 resgata a oficina de Guccio Gucci por ocasião dos 90 anos da grife

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ícones

Bolsa com alça de bambu

Mocassim com detalhe de bridão

Estampa floral

Logotipo e monograma com os dois “G” entrelaçados

Referências ao universo equestre

Faixas nas cores verde e vermelho

 

 

Na rede

         

 

 

 

 

 

 

 

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