[Clássicos da VIEW] Sérgio Carnielli, 2000 #TBT

Ele é a tradução perfeita da expressão self-made man, cunhada pelos norte-americanos, para definir alguém que vence na vida graças a seu próprio esforço. E olha que não foi pouco. Desde cedo, sua vida sempre foi de muito trabalho: filho do meio de uma família grande que lutava com dificuldades, aos oito anos, ele já ajudava o pai na fabricação de tijolos. Hoje, aos 53 anos, é pai de cinco filhos, avô de Rebecca, e o mais bem-sucedido fabricante de óculos do país, presidindo a Tecnol, sediada na cidade paulista de Campinas.

 

Foi um conjunto de circunstâncias – estratagemas do destino, diriam alguns – que conduziu Sérgio Carnielli à produção de óculos e ao envolvimento irreversível com o setor, fundando a Tecnol há 28 anos, empresa.com presença no cenário óptico do planeta, graças à quarta posição que ocupa no ranking mundial de fabricante de armações de receituário.

Nada mais justo que batizar a empresa que lhe consagrou como homem de negócios inspirado em uma característica do mundo moderno que sempre lhe seduziu: a tecnologia. Esta, com certeza, foi a sua inspiração maior, pois é um entusiasta do desenvolvimento. Aos 14 anos, já tinha uma profissão, obtendo o diploma técnico de ajustador mecânico e torneiro. Aos 21, abria seu primeiro negócio: uma pequena oficina mecânica, usinando peças e desenvolvendo projetos para pequenas empresas.

 

Em 1972, começou a flertar com o mundo da óptica. Cinco ex-funcionários da recém-extinta empresa de armações Ibroc (sigla para “Indústria Brasileira de Óculos”) – entre eles, um de seus tios – lhe procuraram para que montasse uma fábrica para o grupo. Além de construir os equipamentos e botar a indústria para funcionar, Carnielli juntou-se aos cinco e, em agosto do mesmo ano, fundava a Tecnol com 20 funcionários e produção diária de 100 peças, localizada em um galpão de 200 metros quadrados no Taquaral, local distante 2 quilômetros da atual sede da empresa, que ocupa uma área de 8 mil metros quadrados.

Por um ano e meio ele ainda conseguiu dar conta dos dois negócios, dividindo seus dias entre a oficina mecânica e a Tecnol. No entanto, a proposta inicial de gerir a empresa de óculos apenas no começo até que os demais sócios – até então apenas com experiência de empregados – pegassem o jeito da coisa, teve de ser abortada. A presença e o talento de Carnielli eram cada vez mais exigidos, o que lhe motivou a vender a oficina e dedicar-se integralmente aos óculos.

No decorrer dos anos, alguns de seus sócios resolveram se aposentar, outros optaram por aventurar-se em outros projetos e, então, em 1981, Carnielli tornou-se o único dono da Tecnol. Nesses 20 anos, a empresa foi de vento em popa, mesmo quando a maré não era das melhores para os fabricantes nacionais de óculos, com a abertura do mercado, no início da década de 90. Graças a uma forte preocupação com o desenvolvimento tecnológico e uma inteligente estratégia comercial, adquiriu outras quatro fábricas (Bella Vista, Guttier, Signus e Sorel) e ainda abriu uma empresa importadora, a Italsol, responsável por distribuir com exclusividade no mercado nacional grifes de ponta. Hoje, são 1,2 mil funcionários e uma produção de 18 mil peças por dia, a grande parte de armações de receituário de várias marcas.

Mas ele também exerce seus dons de presidente em outros domínios. Domínio esse que move grande parte da população brasileira: o futebol. Sérgio Carnielli comanda o seu time de coração, a Ponte Preta, há quase quatro anos. Com certeza, a realização de um sonho para um torcedor como ele, entusiasta da “Ponte” desde muito menino. A administração profissional do clube permite conciliar bem as duas atividades e ainda destinar a maior parte de seu tempo à empresa, cuja novidade mais recente é a atuação também na Europa com a distribuição da linha Beverly Hills Polo Club através do seu braço norte-americano, a Tecnol North America. Até então, a licença de atuação da griffe se limitava às Américas.

 

Como foi o início da empresa, quando a produção diária era de 100 peças? Era difícil colocar o produto no mercado?

Tivemos muitas dificuldades. O pior não era colocar os óculos no mercado, mas fazer a troca das peças quebradas, que não eram poucas. Afinal, estávamos começando, não conhecíamos muito a tecnologia e, então, a qualidade deixava a desejar. É claro que sempre contornávamos a situação, fazendo a reposição dos óculos, marca registrada da empresa desde o início.

Na época, foi um desafio muito grande passar da fórmula caseira para a tecnologia moderna. Mas, desde o começo, há um laboratório que trabalha paralelamente à fábrica para desenvolver novas tecnologias. Esse suporte foi muito bom, porque conseguimos, em pouco tempo, mudar a qualidade e a cara do produto, firmando o nome da empresa no mercado.

 

Você já tinha uma experiência profissional antes de atuar na óptica. Parece que gostou desse mercado, porque não saiu mais dele…

O ramo óptico é realmente fascinante. Desde que entrei, não consegui mais sair. Em 1990, com a globalização do mercado, eu tinha negócios nas áreas de óptica e construção. Diante disso, eu precisava fazer uma opção. Na construção, eu não teria problema com a mudança de mercado, mas, com a fábrica, sim: investiria, buscando novas tecnologias, tornando a Tecnol competitiva, ou teria de deixar a óptica de lado.

Escolhi deixar a construção. Vendi tudo para investir na fábrica. Na época, com a abertura de mercado, consegui, à custa de muito investimento, torná-la competitiva. A prova é que hoje a Tecnol está em igualdade de condições com muitas fábricas do mundo, atuando no exterior, com qualidade e produção para qualquer tipo de mercado.

Fiz isso muito mais pelo coração do que pela razão. Além de gostar muito do ramo, o número de pessoas envolvidas na Tecnol era muito maior do que no negócio de construção. Olhei pelo lado das pessoas que me acompanhavam. Valeu a pena, deixei os demais afazeres para trabalhar no ramo óptico, a não ser agora nesses últimos anos que eu atuo também na minha Ponte Preta, meu clube de coração. Mas a óptica está em primeiro lugar.

 

Você tem sócios em cada em todas fábricas, à exceção da Tecnol?

Sim, mas são parcerias totalmente independentes. Quando fechamos o negócio, a cultura da empresa e os funcionários são mantidos. Meus sócios comandam o negócio com autonomia total, a Tecnol faz parte apenas da composição societária, tendo como única função o suporte tecnológico. A premissa é que todas as empresas tenham tecnologia de produção semelhante.

 

Na sua opinião, esta é a melhor forma de estabelecer uma parceria?

Sem dúvida. Não adianta aplicar o modelo Tecnol nas outras empresas. Quando uma empresa é criada, tem a sua cultura e uma maneira própria de atuar no mercado. Essa é uma peça importante que não pode ser mudada nunca.

O sucesso das parcerias é a independência e assim cada empresa se diferencia uma da outra. O crescimento tem sido muito bom e o resultado, muito positivo. O marketing também: o diretor da área [Maurício Costa] trabalha para todas as empresas e cuida do planejamento com cada um de meus sócios e eles fazem como gostam. Credito a essa autonomia o bom desempenho de cada um de nossos parceiros.

 

Como se deram os primeiros contatos com o exterior com vistas à exportação?

Foi em 1981, eu mesmo iniciei negócios na América do Sul. Esse processo foi acontecendo aos poucos, mas com a abertura do mercado e a preocupação de marcar presença no cenário nacional, pois os importados começariam a entrar com mais facilidade, deixei um pouco de lado o desenvolvimento na área externa. É por isso que nos últimos anos não aconteceu um crescimento das exportações, apenas a manutenção dos números. O foco da Tecnol tem sido o Brasil, sem dúvida. Mas temos planos de dinamizar a atuação no mercado externo brevemente.

 

Como é a sua rotina de trabalho?

Normalmente, levanto cedo e vou para a fábrica. Trabalho até a hora em que sinto prazer em trabalhar. Quando começa a ficar chato, eu paro. Sempre fiz isso: o trabalho só é bom quando se tem prazer. Do contrário, se torna improdutivo, de baixa qualidade, e não serve mais. Trato todos os assuntos de peso de manhã, pois é o melhor período do dia para tomar decisões importantes. À noite, depois de um dia cheio de tensões, as decisões podem não ser as mais acertadas.

 

Do que mais gosta no dia-a-dia?

De tudo, mas prefiro as áreas técnica e de desenvolvimento de produto.

 

Em geral, todo líder de empresa de qualquer setor dedica parte de seu tempo para visitar os clientes. Isso ainda faz parte do seu dia-a-dia?

Não tanto quanto antes. Por pura falta de tempo, inclusive, porque é uma coisa que eu gosto de fazer. Atualmente, esta responsabilidade fica mais nas mãos do diretor comercial [José Mauro Molina]. Acabo encontrando os clientes mais durante as feiras, tanto no Brasil como no exterior.

 

Suas palavras demonstram, com muita freqüência, uma grande preocupação com o aspecto tecnológico…

Tecnologia é algo fundamental em uma empresa. Quem quer crescer e fazer parte desse mundo globalizado, precisa pensar muito no aspecto tecnológico, porque a qualidade é um pré-requisito básico. Sem tecnologia, não se consegue qualidade. Se uma empresa não tiver nível de primeiro mundo, dificilmente sobreviverá. Eu prezo muito a tecnologia e é por esse, entre outros motivos, que o desempenho da Tecnol é sempre equiparado às grandes fábricas de armações do mundo.

 

É que fica visível o seu grande carinho por isso. Talvez até pela sua formação…

Sem dúvida, e quem não quer ter o melhor? Todos querem. Penso que o meu produto tem de ser o melhor de todos, e essa área eu domino muito bem, é uma área que eu trabalhei a vida toda e eu me encontro quando eu trabalho dentro da minha engenharia, do meu laboratório, eu fico muito animado.

 

Qual a sua impressão sobre a trajetória da indústria óptica nacional nos últimos 25 anos?

É um panorama que vejo com tristeza; o parque fabril ficou bastante reduzido nos últimos anos. Em 1990, havia aproximadamente 130 fabricantes brasileiros pequenos, médios e grandes e hoje não passam de 40 indústrias nacionais de óculos. É muito triste falar disso porque, na época, nem todos os empresários tinham condições de investir em desenvolvimento e com isso acabaram fechando as portas, mudando de ramo, ou passaram a atuar em outros segmentos dentro do próprio mercado. Fui um privilegiado na época, pois tive como colocar recursos. Se eu não tivesse como investir, provavelmente a Tecnol não existiria mais.

 

Já que estamos falando tanto da abertura de mercado, qual a sua opinião sobre a concorrência internacional no país?

Tirando aqueles produtos que entram ilegalmente no país, vale a pena ter as grandes empresas como concorrentes. Sua presença no Brasil mostra como se deve trabalhar, a forma de agir em termos de posicionamento de mercado, desenvolvimento de produto etc.

 

A cirurgia refrativa representa uma ameaça para o mercado óptico mundial? Especialmente para empresas como a Tecnol, que tem as armações como carro-chefe?

Acredito que não. Pelo que eu sei, elas não atingem um número muito grande de usuários de óculos. Há também a questão do custo. Conheço “n” pessoas que fizeram a cirurgia e continuam usando os óculos ainda. E, mesmo assim, uma pessoa que é submetida a uma cirurgia dessas tem a necessidade de usar, pelo menos, óculos de sol.

 

Já são 28 anos à frente da Tecnol. Como se sente quando olha para trás e faz um balanço dessas quase três décadas?

Não me considero dono de nenhuma realização. Continuo com vontade de trabalhar e ainda vou fazer muito mais. Sinto-me garoto ainda, com muita vontade de trabalhar e, enquanto eu gostar do trabalho, vou adiante. Não existe um passado de realizações e nem um futuro com projetos. Existe vontade e isso é o importante para mim.

 

Como se dará o processo sucessório na empresa? O senhor já pensou nisso?

O caminho é a administração profissional. Não preciso mais estar presente todo o tempo. Se eu sair hoje e voltar daqui a 90 dias, a Tecnol continua trabalhando e crescendo, sem nenhum problema. O sistema administrativo está interligado e completamente profissionalizado para que tudo possa ter continuidade, mesmo que eu resolva deixar de trabalhar.

 

 

Um breve resumo

 

Tecnol

www.tecnol.com.br

Origem: Campinas (SP)

Ano de fundação: 1972

Empresas que pertencem ao grupo: a distribuidora Italsol e as fábricas Bella Vista, Guttier, Signus, Sorel e Tecnol

Produção: 18 mil peças por dia, 80% de metal, entre eles, monel e titânio (nas linhas Beverly Hills Polo Club e Platini). Os 20% de plástico dividem-se entre acetato, propionato ou grilamid. Quatro fábricas são especializadas em modelos de receituário. A quinta, Signus, tem como forte os óculos solares.

Ranking: é considerada a quarta maior fábrica do mundo de armações

Funcionários: 1,2 mil (700 estão na Tecnol)

Clientes: cerca de 6 mil no país

 

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