[Clássicos da VIEW] Luxottica e Tecnol: o Brasil na rota da óptica mundial, 2011 #TBT

Por anos seguidos, os boatos deram conta de que a Luxottica estaria iniciando a entrada de sua operação de varejo no Brasil ao comprar uma ou outra rede de ópticas já estabelecida. Como o bom senso determinava, muito se falou, mas nada se concretizou. Até que, em maio, a corporação italiana abriu no Rio de Janeiro a primeira filial da Sunglass Hut, sua rede especializada em óculos solares. Mas a grande novidade veio mesmo em 1º de dezembro com um anúncio de outro caráter: nada menos que a aquisição de 80% das ações da Tecnol (e os demais 20% nos próximos quatro anos), a maior operação nacional de óculos.

Texto Andrea Tavares

 

Se você cresceu ou já era adulto durante a ditadura, lembra com clareza do clima de ufanismo que “reinava” no Brasil. Definitivamente, propagar o orgulho exagerado pelas belezas e potências do país era uma das armas das quais os comandantes de então dispunham para manter a ordem estabelecida – diga-se de passagem, à força. Dentre as mensagens propagadas por essa máquina ufanista, uma das mais batidas era de “o Brasil é o país do futuro”.

Na escola, durante as aulas de Estudos Sociais (risível hoje, mas no país de então, matérias como História e Geografia eram consideradas subversivas, daí criarem uma terceira que englobava ambas, essa tal de “Estudos Sociais”), eram incansáveis as menções às maravilhas brasileiras, obviamente também às forças armadas e às potências do país, com a promessa de um futuro brilhante. Mas os anos foram passando e cada crise econômica, cada zero cortado na moeda, cada notícia de subdesenvolvimento e muita fome eram golpes nessa crença que o governo da ditadura tentou empurrar goela abaixo da população. Pura balela, a maioria pensava.

 

Brasil, bem na foto – Eis que mais de 40 anos depois, parte desse tal futuro brilhante deu as caras. Desde que as finanças mundiais começaram a ruir no final de 2008 (primeiro, a economia norte-americana e, na sequência, a europeia) e o Brasil não fez coro à crise, parece que a ordem mundial estava mudando de eixo. Se o país era considerado subdesenvolvido nos anos 80, em desenvolvimento nos anos 90 e emergente na primeira década de 2000, integrante de um grupo de países batizado como “Brics” (termo cunhado pelo economista inglês Jim O’Neill, chefe de pesquisa do banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs, que é a reunião das iniciais de “Brasil”, “Rússia”, “Índia”, “China” e, mais recentemente, “África do Sul” – em inglês, esse último é chamado de “South Africa”, daí o “s”), é potência reconhecida nesta década.

O tal futuro chegou. Não necessariamente a visão de futuro ufanista da ditadura, mas um futuro que agora já é presente e traz dias mais favoráveis e de uma vida mais digna aos brasileiros por conta da estabilidade econômica.

O potencial de consumo então adormecido de uma gigante fatia da população e a atual constância do Brasil na agenda mundial fazem brilhar os olhos estrangeiros, especialmente quando Estados Unidos e vários países europeus ainda vivem um delicado momento econômico. Dá até a sensação de que o país foi descoberto de fato em 2011, 511 anos depois da data oficial.

 

Nova ordem mundial – Na óptica, não é diferente. A combinação de uma economia sólida de um país que deixou de ser emergente para ser uma potência recém-desabrochada com a crise lá fora tem feito muitas corporações depositarem sua confiança e esperanças no Brasil, fazendo desta nação berço para seus investimentos e colocando o país na rota da óptica no planeta. A face mais visível dessa nova fase da nova ordem mundial na óptica é a aquisição da Luxottica pela Tecnol, anunciada oficialmente em 1º de dezembro.

Pelos termos do acordo, em uma primeira fase, a corporação italiana adquire 80% das ações da empresa brasileira em uma transação com valores não revelados, que deve ser concluída no início de 2012. Ao final de quatro anos, terá a totalidade acionária, com a compra, a cada ano, de 5% dos 20% restantes com valores predeterminados. A única cifra oficial relativa à negociação divulgada no documento para a imprensa e os investidores foi o valor avaliado da Tecnol: € 110 milhões, mas nos bastidores comenta-se que a transação atingiu a casa dos € 120 milhões.

Atualmente, o Brasil integra o top 10 do ranking de países da divisão de atacado da Luxottica (a outra divisão da empresa é a Luxottica Retail, seu braço de varejo, com mais de 7 mil pontos de venda em 130 países), com preço médio por unidade maior que na Europa, apesar do foco predominante no segmento de luxo. A compra da Tecnol escancara as portas para o crescimento da empresa no Brasil e deve elevar o país, segundo a própria Luxottica, ao posto de uma das cinco principais nações na sua operação de atacado, além de sinalizar ótimas perspectivas de avanço em toda a região latino-americana.

Na atual estratégia da Luxottica, o Brasil – e, por consequência, a América Latina – são regiões-chaves. Suas taxas de crescimento cresceram para a casa dos dois dígitos nos últimos anos, transformando o país em um dos principais locais de investimento, ao lado da China, da Índia, do México e da Turquia.

 

Local lá e cá – “Essa operação se encaixa perfeitamente em nossa estratégia de crescimento em longo prazo”, comentou o CEO (em inglês, “Chief executive officer”, sigla que denomina o cargo de diretor executivo) da Luxottica, Andrea Guerra. “O Brasil é um dos países em que a empresa tem por objetivo ser tão ‘doméstica’ como é na Itália, onde está estabelecida há 50 anos, construindo raízes locais por meio de investimentos em pessoas, ações e cultura. A Tecnol é a melhor parceira possível para fortalecer a presença no Brasil e toda a América Latina, já que temos a mesma visão, a mesma abordagem de excelência de serviços e o mesmo modelo comercial de integração vertical”.

A corporação italiana declarou que, com a aquisição da Tecnol, elevará a qualidade dos serviços a seus clientes brasileiros, oferecendo os mesmos padrões de excelência praticados em países como Itália, França e Estados Unidos. Tornar-se doméstica no Brasil, usando a expressão do próprio CEO Andrea Guerra, significará também minimizar grande parte dos custos e das complexidades atualmente enfrentados na importação, com a redução de cerca de dois terços no tempo de entrega, por conta da produção local, além de abrir a possibilidade de novas sinergias para os negócios.

 

Sucesso para ambas as partes – A Tecnol é a principal empresa de óculos no Brasil e, segundo o documento que divulga a negociação, o grupo campineiro registrou vendas líquidas de aproximadamente € 90 milhões em 2010, com taxa anual de crescimento de aproximadamente 14% nos últimos três anos. Além da operação industrial que já lhe garantiu o posto de quarta maior fábrica de armações de receituário do mundo no final da década de 90, estendeu sua atuação para o varejo em 2009 com o lançamento da Ótica Íris, atualmente com 90 lojas. No ano seguinte, mudou-se para uma nova sede, com tecnologia fabril de ponta, instalando também no local um laboratório óptico de alta tecnologia (inclusive com surfaçagem digital).

“Estou muito satisfeito em iniciar a colaboração com a Luxottica no Brasil. Reconheço a Luxottica como empresa líder em nosso mercado e acredito que essa operação irá conduzir o sucesso de ambos os grupos”, foram as palavras do presidente e fundador do Grupo Tecnol, Sérgio Carnielli.

 

De Campinas para o mundo – Tanto Sérgio Carnielli quanto Leonardo Del Vecchio venceram na graças a seus próprios esforços. Desde cedo, a vida de Carnielli sempre foi de muito trabalho: filho do meio de uma família grande, aos oito anos já ajudava o pai na fabricação de tijolos. Aos 14 anos, já tinha uma profissão, ao receber o diploma técnico de ajustador mecânico e torneiro. Aos 21 anos, abria seu primeiro negócio: uma pequena oficina mecânica, usinando peças e desenvolvendo projetos para pequenas empresas.

Em 1972, começou a flertar com a óptica. Cinco ex-funcionários da recém-extinta empresa de armações Ibroc – entre eles, um de seus tios – lhe procuraram para que montasse uma fábrica para o grupo. Além de construir os equipamentos e botar a indústria para funcionar, Carnielli juntou-se aos cinco e, em agosto do mesmo ano, fundava a Técnica Nacional de Óculos, que se celebrizou como Tecnol, com 20 funcionários e produção diária de 100 peças, localizada em um galpão de 200 metros quadrados no bairro do Taquaral, em Campinas.

Por um ano e meio, dividiu-se entre a oficina mecânica e a Tecnol, até que decidiu dedicar-se integralmente aos óculos. No decorrer dos anos, alguns de seus sócios resolveram se aposentar, outros optaram por aventurar-se em outros projetos e, então, em 1981, Carnielli tornou-se o único dono da Tecnol. A empresa foi de vento em popa, mesmo quando a maré não era das melhores para os fabricantes nacionais de óculos, com a abertura do mercado, no início da década de 90.

Em 2009, começou sua empreitada no varejo com a abertura das Ópticas Íris, com foco no interior de São Paulo e atualmente com 90 pontos de venda.

 

De Agordo para o mundo – A Luxottica foi fundada há exatos 50 anos pelo italiano Leonardo Del Vecchio, ao pé dos Alpes dolomitas na pequena cidade de Agordo, na região italiana do Vêneto, e atua globalmente no atacado e no varejo de óculos, com vendas líquidas na casa dos € 5,8 bilhões.

Del Vecchio, até hoje presidente da empresa, começou sua carreira como aprendiz de ferramentaria em Milão e dedicou-se à produção de partes para óculos. Mudou-se para Agordo em 1961 e, no mesmo ano, fundou a Luxottica, inicialmente na condição de fornecedora de componentes para fábricas de óculos. Seis anos mais tarde, começou a fabricar armações e vendê-las sob a marca “Luxottica” e, em 1971, ano em que a empresa completou uma década de existência, passou a dedicar-se exclusivamente à produção de óculos.

Em 1981, deu início à internacionalização das operações com a abertura da primeira subsidiária – o país escolhido foi a Alemanha – e, em 1988, deu um passo que revolucionou a indústria óptica ao assinar seu primeiro contrato de licenciamento. Ao lançar uma coleção com o criador italiano Giorgio Armani, redesenhou a relação da óptica com a moda, gerando uma bem-sucedida operação baseada em design e identidade de moda, distribuição mundial e lucros. Dois anos mais tarde, as ações da empresa passaram a ser cotadas na bolsa de valores de Nova Iorque e ocorre a assinatura de novas licenças com marcas de moda.

Em 1995, Del Vecchio adquire a legendária marca de óculos Persol, fundada em 1917, e se estabelece no varejo, com a aquisição da LensCrafters, uma das mais importantes redes de óptica dos Estados Unidos. O ano de 1999 também é emblemático por conta da aquisição por US$ 640 milhões do portfólio de marcas de óculos da norte-americana Bausch & Lomb, que inclui outra legendária marca e sinônimo de óculos solares em várias partes do planeta: a Ray-Ban – as demais eram Arnette, I’s, Killer Loop e Revo.

Em 2001, mais um grande passo no varejo, com a compra da Sunglass Hut, a rede especializada em óculos solares. Seis anos mais tarde, outra aquisição de peso: a norte-americana Oakley, gigante do universo óptico. Hoje, a corporação produz mensalmente 50 milhões de peças e está em mais de 130 países com 62 mil funcionários.

Leonardo Del Vecchio ocupa a 71ª posição na lista mundial de bilionários de 2011 da revista de negócios norte-americana Forbes com a fortuna de US$ 11 bilhões. No ranking italiano de bilionários, também segundo a Forbes, é o segundo colocado – o líder é o empresário Michele Ferrero, 32º colocado na relação mundial, dono do império de guloseimas Ferrero, com marcas como Ferrero Rocher, Kinder Ovo, Tic Tac e Nutella e posses de US$ 18 bilhões.

 

Repercussão internacional – A aquisição foi divulgada oficialmente em 1º de dezembro, mas, na véspera, alguns veículos de comunicação já divulgavam a novidade, como o prestigioso site norte-americano Women’s Wear Daily e o jornal brasileiro O Estado de São Paulo. Na sequência, a notícia foi divulgada com amplitude mundial.

 

Grande passo – Tal negociação faz do Brasil a quarta nação na lista de sedes de fábricas da Luxottica (além da Itália, há unidades produtivas nos Estados Unidos e na China), coloca definitivamente o país na vitrine da óptica mundial e pode ser apenas o princípio de um novo momento para o mercado óptico nacional. Momento esse pautado, sobretudo, pelo profissionalismo e a possibilidade da concretização de outras operações do gênero, fazendo do Brasil uma das grandes potências do Planeta Óculos. O futuro virou presente: que venham 2012, 2013 e muito mais.

 

 

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