[Clássicos da VIEW] A estratégia da recém-chegada Kering Eyewear, 2015 #TBT

A VIEW acionou sua conexão com o grupo norte-americano Jobson Optical a fim de revelar as estratégias da Kering Eyewear, braço do Kering Group, que em setembro de 2014 optou por internalizar a operação de óculos de suas grifes e segue se estabelecendo pelo mundo afora. Em setembro, a diretora editorial da Jobson, Marge Axelrad, conversou com exclusividade com o CEO da Kering Eyewear, Roberto Vedovotto, entrevista publicada no jornal Vision Monday e que a VIEW publica agora.

Texto Marge Axelrad :: Tradução Fabrizio Del Ducca :: Texto final em português Andrea Tavares

No comando: o presidente do Kering Group, François-Henri Pinault, e o diretor geral da Kering Eyewear, Roberto Vedovotto

 

O plano estratégico e o significativo investimento em um novo modelo de negócios no mercado óptico agora está oficialmente em andamento no Kering Group (que até março de 2013 era conhecido como PPR, sigla para “Pinault-Printemps-Redoute”, e está presente em mais de 120 países, com receita de € 9,7 bilhões e 35 mil funcionários em 2013).

Trata-se da Kering Eyewear, nova iniciativa global do bilionário Kering, que apresentou em junho as primeiras coleções de seu portfólio composto por nove marcas a parceiros estratégicos do varejo, formou uma equipe de gestão de vendas e marketing, montou um grupo de criação e desenvolvimento de produtos, assim como uma rede global de produção e distribuição, que proporcionará o controle direto de suas marcas no mercado.

A nova empresa, liderada pelo CEO (do inglês, “Chief Executive Officer”, sigla que denomina o cargo de diretor executivo) Roberto Vedovotto, reflete a decisão do Kering Group de assumir o controle de suas marcas e abrir mão do licenciamento das coleções de óculos das grifes de seu portfólio, indo na contramão da atual prática de mercado, que prevê a concessão de licenças a corporações, que, mediante acordos, criam, fabricam e comercializam as coleções.

Ao anunciar que estava embarcando nessa direção, em setembro do ano passado, o Kering Group declarou que “após avaliar as perspectivas de crescimento do mercado óptico e do potencial de negócios de suas marcas nessa categoria, iniciou um movimento estratégico com o objetivo de desenvolver internamente uma especialização em óptica”.

A empresa observou, naquela época, que “o mercado óptico global para armações de receituário e óculos solares é significativo e cresce dois dígitos nas linhas premium. O tamanho atual dos negócios da Kering é de aproximadamente € 350 milhões, o que a torna uma das cinco maiores empresas da óptica mundial. As suas 11 grifes que estão no mercado óptico, nove das quais gerenciadas por acordos de licenciamento com cinco parceiros diferentes, geram royalties de cerca de € 50 milhões. A fim de maximizar o extraordinário potencial do seu portfólio, o Kering Group está implantando um novo modelo de negócios em que irá controlar totalmente a cadeia de valor de óptica, do design ao desenvolvimento de produto e à cadeia de abastecimento, da gestão de marca e do marketing até as vendas”.

 

Dedicação de luxo – Em entrevista concedida com exclusividade ao Vision Monday, realizada no escritório da Kering nos Estados Unidos, Vedovotto reiterou: “estou muito feliz pela oportunidade de ser capaz de construir uma nova empresa nesse mercado. Eu não poderia ter mais sorte que encontrar um chefe como François-Henri Pinault [o diretor executivo do Kering Group), um grande empresário. A filosofia e a missão da empresa é potencializar a imaginação e acredito que a Kering Eyewear está realizando isso, estimulando a criação de algo completamente novo e diferente. Está sendo construída não apenas mais uma empresa óptica, mas uma empresa de luxo dedicada aos óculos”.

No lançamento oficial das primeiras nove marcas, para um seleto e estratégico grupo de clientes internacionais, os convidados conheceram em primeira mão as coleções na matriz da Kering Eyewear, situada em uma vila renascentista restaurada, na cidade italiana de Padova, região do Vêneto e um dos berços da óptica mundial, que concentra a maioria esmagadora das empresas do setor naquele país.Em seguida, o grupo comemorou o lançamento no Palazzo Sassi, em Veneza, confirmando, segundo Vedovotto, o compromisso de François-Henri Pinault e, consequentemente, do Kering Group, com a iniciativa: “depois da primeira campanha, a resposta ao primeiro grupo de marcas superou as expectativas”.

Além dos lançamentos em Padova, a Kering Eyewear promoveu exibições locais em países como China, Espanha, Estados Unidos, França, Hong Kong e Reino Unido. São nove as marcas do portfólio da nova corporação: Alexander McQueen, Bottega Veneta, Saint Laurent, Puma, Boucheron, Stella McCartney, McQ, Pomellato e Brioni – as três primeiras foram “resgatadas” da Safilo mediante um acordo de € 90 milhões; a Puma, da Charmant; a Boucheron, da Gold & Wood; a licença de Stella McCartney com a Luxottica já havia expirado em 2014; McQ é a marca de difusão da grife de Alexander McQueen; Pomellato e Brioni, ambas italianas, a primeira, de joalheria, e a segunda, masculina de luxo. O grupo de parceiros varejistas selecionados receberá os primeiros pedidos em novembro e dezembro.

 

Tripé estratégico – Vedovotto explicou que “ao dar sim para a nova empresa, François-Henri Pinault definiu três pontos estrategicamente fundamentais. Primeiro, garantir que os produtos estejam alinhados com o DNA do grupo – o Kering é parte de uma única família, é possível trabalhar diretamente com os diretores criativos das grifes. Em segundo lugar, garantir um maior padrão de qualidade ao consumidor final. E, por fim, ser mais seletivo no que diz respeito à distribuição”.

Vedovotto explicou ainda que a definição dessa seleção na distribuição depende individualmente de cada marca, do tamanho e do caráter do negócio em cada mercado. E estimou que o alcance mundial das marcas de perfil A+ está entre 3 mil e 5 mil pontos de venda, enquanto outras marcas, de atuação mais ampla, podem chegar até 10 mil portas, mantendo foco no plano da empresa.

O italiano, que também passou a integrar o comitê executivo do Kering, não forneceu detalhes específicos sobre o investimento na abertura da Kering Eyewear, mas observou que “é muito substancial, levando-se em conta o que está sendo desenvolvido em termos de geração de empregos, investimentos em produtos e eficiência em sistemas para servir os consumidores, implantação de escritórios e distribuição. Além do acordo com a Safilo, que prevê o pagamento pela antecipação do término da licença da Gucci, conforme já foi anunciado”.

Sobre isso, Kering e Safilo concordaram em modificar essa parceria de duas décadas e acertaram a rescisão da licença da Gucci para 31 de dezembro de 2016. Em contrapartida, a Kering pagará a Safilo € 90 milhões. E, para se beneficiar da capacidade produtiva da Safilo, ficou acertado um acordo de parceria estratégica de produto com duração de quatro anos, a partir de janeiro de 2017.

 

Quem fabrica? – Além da parceria com a Safilo para fabricação, a Kering Eyewear criou, segundo palavras de Vedovotto, uma “rede muito selecionada de fornecedores” a fim de atender seu portfólio atual e futuro de marcas de óculos. A maioria desses fornecedores é composta por indústrias italianas, seguido de fábricas japonesas. Já peças de reposição e alguns componentes virão da China.

De forma geral, a empresa prevê um equilíbrio de vendas entre receituário e solar. “Um ano atrás”, calculou Vedovotto, “havia quatro pessoas trabalhando na Kering Eyewear. Hoje, esse número ultrapassa os 150”. A companhia também já abriu subsidiárias na maioria dos países em que planejou se estabelecer, incluindo Alemanha, Canadá, China, Espanha, Estados Unidos, França, Hong Kong, Itália, Japão e Reino Unido. Outras filiais estão a caminho e, nos demais mercados, a Kering Eyewear operará com acordos de distribuição.Outra inovação que a Kering Eyewear está propondo ao mercado diz respeito ao trabalho dos representantes de vendas, conceito que está sendo colocado em prática em todas as filiais já estabelecidas: um seleto grupo de embaixadores da marca é quem atende os ópticos.

 

Quartel-general: a sede da recém-fundada Kering Eyewear ocupa uma restaurada vila renascentista em Padova, Vêneto italiano

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