A inteligência artificial na óptica

A equação homem versus máquina foi o centro das atenções da edição 2017 do Vision Monday Global Leadership Summit, ou simplesmente VM Summit, realizado pela Jobson Publishing, em Nova York, que reuniu cerca de 400 profissionais do ramo óptico interessados em saber como a tecnologia pode impulsionar seus negócios e suas práticas.

Texto Denise Freire :: Imagens Divulgação

 

Abertura: Marc Ferrara (Jobson) define a inteligência artificial como “a” coisa e não apenas “uma coisa”

AI – Inteligência Artificial. Não, não se trata do filme de 2001, idealizado por Stanley Kubrick e realizado por Steven Spielberg, mas do tema 2017 do Vision Monday Global Leadership, o VM Summit, organizado pela Jobson Publishing. A 11ª edição do evento atraiu 400 executivos do ramo óptico interessados em aprender como implantar e se beneficiar dessa ferramenta tida como a força transformadora nos negócios e nos cuidados com a saúde do momento.

Realizado em 29 de março, no nova-iorquino The Times Center, o VM Summit foi dividido em quatro sessões com mais de uma dúzia de especialistas em AI, que discorreram sobre como essa tecnologia está rapidamente afetando o varejo e a saúde, assim como as interações sociais.

Usando como exemplos carros autônomos, chatbots e análise preditiva, especialistas descreveram como a aprendizagem automática, o deep learning, as redes neurais artificiais e outros aspectos da AI impulsionam a tomada de decisão de executivos e trazem um novo nível de personalização para a experiência do consumidor.

Com patrocínio de Essilor, Europa Eyewear e VSP Global e apoio de ABS Smart Mirror, Alcon, CareCredit, Luxottica e The Vision Council, o evento foi aberto pelo CEO (do inglês, “Chief Executive Officer”, sigla que denomina o cargo de diretor executivo) da Jobson Medical Information, Marc Ferrara. “AI não é uma coisa; é ‘a’ coisa”, decretou. A seguir, confira os pontos altos do VM Summit 2017.

 

AI: uma ferramenta e não uma ameaça

Ao falar do processamento da linguagem natural na primeira sessão do VM Summit 2017, Insight, integração e investimento, a fundadora e CEO do Fast Forward Labs, Hilary Manson, citou filtros de spam e resumo automático, sustentando que o uso da AI em tarefas repetitivas para a geração de dados reduzirá drasticamente os custos e abrirá espaço para o trabalho criativo. Outra ferramenta presente no discurso da especialista foi o Google Maps, no qual o usuário usufrui da tecnologia sem precisar entender o que é feito com os dados. “Essa é a característica mais bem-sucedida da AI”, disse. Manson também dissipou o medo de que a tecnologia elimine a necessidade de mão-de-obra humana. “Al não é uma ameaça, mas uma ferramenta para impulsionar o profissional humano no desempenho do seu trabalho”, assegurou a especialista que se descreve como uma nerd.

Estímulo à criatividade: Hilary Manson acredita que a AI, longe de ser uma ameaça, faz o profissional humano progredir em seu trabalho

 

Mobilidade: a próxima ruptura

Passa de US$ 1 trilhão a estimativa dos benefícios econômicos gerados pela adoção de veículos autônomos somente nos Estados Unidos, o que engloba prevenção de acidentes, diminuição dos congestionamentos, economia de combustível e aumento da produtividade. Foi com base em pesquisa da Morgan Stanley que o diretor geral e cofundador da Icebreaker Ventures, Mark Platshon, falou sobre o que ele chama de a próxima Revolução Industrial: os veículos autônomos e seu impacto na mobilidade, afetando diferentes facetas da vida e da sociedade. “O carro não mudou em 100 anos e, de repente, surge essa tecnologia”, disse o expert, citando áreas em que a AI pode fazer diferença, como agricultura, construção, turismo, saúde, transporte, consumo e logística.

 

O homem e a máquina

De acordo com o PhD, cientista e gerente da IBM Commerce Research, Chandra Narayanaswami, a próxima fase da AI é o Renascimento, na qual humano e máquina trabalham simbioticamente, impulsionando a expertise e os pontos fortes do outro. “Não é o homem versus a máquina. É o homem com a máquina”, garantiu ao falar sobre os sistemas de computação cognitiva e como a tecnologia de aprendizagem profunda atua nos cuidados com a visão e na indústria óptica.

 

Agilidade nos negócios

O papel da AI no gerenciamento de pedidos foi o tema da fala do executivo da IBM Watson Commerce, Alberto Jimenez. “Varejo e comércio passam por mudanças irreversíveis e haverá um abismo entre os negócios que usam ferramentas artificiais e os que não”, decretou, estimulando os varejistas a capacitar os funcionários com informações de clientes e produtos. “A AI monitora a navegação on-line, ajudando a abordagem dos atendentes quando os clientes entram na loja. A tecnologia agora permite personalização em um nível nunca possível antes”, garantiu.

 

Solução em marketing digital

“O marketing digital está complexo e ineficiente e os algoritmos de AI são melhores, mais rápidos e mais robustos”, disse o CEO e fundador da Adgorithms, Or Shani, nome por trás de Albert, a primeira e única plataforma autônoma de propaganda e marketing do mundo. Totalmente automatizada, a solução não apenas reproduz o que os profissionais humanos fazem, mas também aumenta a prospecção – resultado que gera entusiasmo e temor ao mesmo tempo, como o de tirar empregos. “AI vem em missão de paz. A tecnologia pode ajudar quem está perdendo negócios para os concorrentes”, tranquilizou o expert, ressaltando ainda que a “AI não é um truque de mágica capaz de resolver tudo, mas um tipo diferente de inteligência”.

 

Segurança e diagnóstico fácil

A aprendizagem profunda pode mudar o tratamento e o diagnóstico de doenças da retina, sobretudo em relação à identificação e ao prognóstico de problemas como degeneração macular e retinopatia diabética. Essa é a perspectiva do oftalmologista consultor do hospital londrino Moorfields Eye, Pearse A. Keane, que, em entrevista pré-gravada em vídeo feita pelo editor de tecnologia oftálmicas da Jobson, Andrew Karp, explicou como o DeepMind, do Google, analisa o exame de OCT (Tomografia de coerência óptica). Não invasivo, rápido e seguro, o exame pode ser realizado com frequência sem pôr em risco a saúde ocular do paciente, ressaltando ainda que a AI torna financeiramente possível a utilização do exame em programas nacionais de triagem.

 

Pensar fora da caixa

Resolver os problemas de transição relacionados à AI é o primeiro passo para a implementação dos sistemas autônomos na sociedade, de acordo com o professor de filosofia e diretor do Centro de Ética e Política da Carnegie Mellon University, Alex John London. “A utopia é usar essa tecnologia para personalizar a medicina, além de amenizar as limitações, aprimorar as habilidades e permitir melhores relacionamentos uns com os outros”, disse, destacando a necessidade de sistemas humano-máquina bem pareados que mesclem e combinem os pontos fortes dos humanos com os da máquina. “O objetivo é um futuro mais justo e inclusivo e não um que apoia a exclusão e no qual as pessoas são reduzidas a dados explorados em proveito de corporações sem nome ou sem rosto”, falou London.

Medicina personalizada: Alex John London (Carnegie Mellon University) e Andrew Karp (Vision Monday)

 

A alma da máquina

Violonista e professora de Interactive Computer Music Performance, na The Juilliard School, Mari Kimura combinou ciência com criatividade em um dueto homem-máquina, que encantou o público. Por sugestão do lendário cientista cognitivo Al Marvin Minsky, Kimura aprimorou as capacidades técnicas e expressivas da composição musical por meio da AI, do uso de um roteador wi-fi e um sensor de movimento. Usada por Kimura durante a apresentação, a luva com eletrodos monitorou o ângulo e a velocidade do braço da violonista, alimentando os dados em um laptop que usou um algoritmo para processar e produzir sons exclusivos.

Ciência e criatividade: a violonista e professora Mari Kimura encantou o público com sua performance usando luva habilitada por sensores na produção de sons únicos

 

Compartilhar dados para melhorar o cuidado oftalmológico

Editor-chefe da Review of Optometry, Paul Karpecki mencionou o projeto Ophthalmic Resources, em que a informação do paciente integra um registro médico eletrônico (EMR) e um algoritmo ajuda a encontrar o melhor tratamento. E não para por aí: com o feedback do paciente, o sistema determina o grau de sucesso da prescrição.

 

AI remodela a experiência do consumidor

Mudar o modo como as empresas de assistência médica se conectam com os pacientes é uma das possibilidades de uso da AI, segundo o diretor de estratégia e SVP da Next IT Healthcare, Victor Morrison, que falou sobre a plataforma Digital Health Coach. “É o uso da conectividade e da integração para entender o objetivo do usuário ou do paciente. A análise dos dados de saúde permite traçar um perfil do que os pacientes precisam”, explicou antes de exibir o vídeo Life with a virtual health assistant (VHA) – do inglês, “a vida com um assistente de saúde virtual”. O vídeo acompanha um dia típico na vida do diabético Richard e sua interação com Sarah, sua VHA, cujas funções incluem lembretes de checagem de glicose, agendamentos de consultas e incentivo à prática de exercícios, além da criação de estatísticas.

 

AI e a política global de cuidados da visão

CEO do Brien Holden Vision Institute, Kovin Naidoo chamou a atenção para uma iminente crise de saúde pública. “Por volta de 2050, metade do mundo será míope”, disse ao propor que oftalmologistas adotem as soluções inovadores e econômicas oferecidas pela AI. “Mas não haverá mudanças efetivas a menos que haja mudanças políticas”, falou o especialista, mencionando duas tecnologias para minimizar o impacto dessa crise global: um kit portátil para exame dos olhos (Peek) e o Microsoft Intelligent Network for Eyecare (Mine) – esse último, lançado em 2016 pela Microsoft Índia em colaboração com o L.V. Prasad Eye Institute.

 

Desenvolvendo a “prática híbrida”

Combinar cuidado presencial e virtual melhora a eficiência do tratamento, assim como a comunicação entre médico e paciente, fornecendo dados mais precisos. Esse é o objetivo do Eyecarelive, plataforma de telemedicina baseada em nuvem apresentada pelo chefe de tecnologias emergentes do Cool Doctors, John Gelles. “Esse consultório híbrido garante economia de tempo, dinheiro e recursos”, enfatizou, destacando que a AI vai apoiar os médicos, e não substituí-los. “O objetivo é fazer médicos melhores”, constatou.

Experiência do consumidor e saúde visual: da esquerda para a direita, Victor Morrison (Next It Healthcare), John Gelles (Cool Doctors), Kovin Naidoo (Brian Holden Vision Institute) e Paul Karpecki (Review of Optometry)

 

Estudantes inovam a optometria com a AI

Vencedores do Prêmio Estudante Inovador do Ano, da Fundação Rick Bay, Kathleen Hoang e Alex Martin apresentaram suas invenções, com apoio, respectivamente, da Essilor of America e VSP, e da Vision Web. Kathleen, do SUNY College of Optometry, exibiu o DM, aplicativo para diabéticos com notificações integradas – envolvendo controle de alimentação, atividades físicas, consultas e informações sobre a doença – e conexão via bluetooth com monitores de glicoses e outros dispositivos. O app também permite ao usuário montar seu próprio perfil e se relacionar com outros diabéticos na comunidade.

Já Martin, do New England College of Optometry, buscou derrubar as barreiras impostas pela língua ao criar o Lengua Lista, um tradutor clínico que permite a comunicação instantânea entre médicos e pacientes em suas línguas nativas em tempo real. Além disso, o dispositivo arquiva exames passados e preenche um registro médico eletrônico.

 

 

 

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