[Um outro olhar] O romance acabou?

Maníaca por óculos, Andrea Tavares é editora da VIEW e do Blog da VIEW

Minha memória me diz que foi o futebol que me fez entender o que era saudosismo. Nasci no final dos anos 60 e a primeira Copa do Mundo de que me lembro é a de 1974, a primeira dos fracassos da nossa seleção que se estenderiam pelos próximos 20 anos. Até então, o Brasil era o astro do futebol mundial, havia conquistado o tricampeonato em um intervalo fenomenal de 12 anos e boa parte do ar que se respirava naquela altura vinha acompanhada dos acordes de “A taça do mundo é nossa/com brasileiro não há quem possa…”, um dos hits ufanistas da década de 70. Quando começaram os fracassos, foi um tal de começar a dizer “porque, naquela época, é que se jogava futebol; hoje em dia ninguém quer mais nada…”. Haja saudosismo!

Se isso fosse só no futebol, ok, é suportável. A questão é que nós, seres humanos, temos a tendência a valorizar excessivamente o passado. E isso pode virar mais uma muleta em nossas vidas. A vida é cheia de surpresas e o mundo se reinventa a toda hora, ainda mais nos dias de hoje, com tanta tecnologia, internet e redes sociais. As mudanças não ocorrem apenas mais rapidamente, mas parecem ser mais avassaladoras. Contraditoriamente, o ser humano não parece ter sido feito para as mudanças – talvez o saudosismo seja o principal sintoma disso.

Definitivamente, o mercado óptico do Brasil e de boa parte do mundo é um dos escolhidos da vez para esse tufão de mudanças. Não se trata apenas das grandes negociações que têm se visto nos últimos anos, mas dos sentimentos que tudo isso tem causado. As corporações seguem cada vez mais focadas em aspectos tangíveis como resultados financeiros positivos e fatias de mercado, dando menos importância a questões menos palpáveis como tradição, memória, relacionamento… Às vezes, dá a impressão de que tudo que se tinha construído foi implodido em um piscar de olhos e mal sobrou pó: “cadê o gerente (ou o representante) que me atendia tão bem há tantos anos que não está mais aqui? Cadê o valor da longa e sólida relação que a minha óptica tinha com essa empresa e desapareceu do nada? Onde foi parar aquela empresa cujo diretor geral já tinha visitado a minha óptica e várias outras pelo menos uma vez?”.

Essas perguntas e outras do gênero acabam despertando um ar saudosista e começam a dar aquela sensação de que o romance acabou. Afinal, as coisas já não são mais as mesmas; o mercado óptico, tão marcado pela força do relacionamento, vive uma nova era, mais fria, mas não necessariamente mais profissional. Pelo contrário, não vai haver fim de romance que me convença que a capacidade de bons relacionamentos não é uma característica de ótimos profissionais!

Mas, sim, o namoro acabou. O mercado óptico vive uma nova era. Mas, vai por mim, o melhor remédio é praticar o “aceita que dói menos”, a frase divertida que nasceu como bordão de novela e é um ótimo mantra para esses momentos em que as mudanças se impõem! E momentos assim são verdadeiro combustível para o saudosismo. Apesar de o apego ao passado ser algo tão humano, vale não exagerar na dose. O mundo não acabou. E, pense bem, não está fácil para muita gente: os Estados Unidos padecem com um presidente um tanto lunático, icônicas e tradicionalíssimas marchinhas de Carnaval são censuradas, lojas de departamento norte-americanas em franca decadência (quem diria?!), semanas de moda sendo postas em xeque e muitas outras situações estranhas.

O caminho é ser testemunha desse momento e não vítima. Vitimizar-se é mergulhar no saudosismo e apegar-se demais ao “ah, como era bom…”. Concordo, era ótimo, mas ficou para trás. Vamos guardar tantas coisas legais no coração com carinho e seguir em frente. Somos humanos, não gostamos de mudanças, mas também temos uma capacidade incrível de nos reconstruir. E se, por acaso, der aquela vontade de mergulhar fundo no saudosismo, faça os versos da música de Marina Lima, À francesa, como mantra: “mas os momentos felizes não estão escondidos, nem no passado nem no futuro…”.

 

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