[Um outro olhar] Grão de milho ou pipoca?

Maníaca por óculos, Andrea Tavares é editora da VIEW e do Blog da VIEW

Lá se vão uns 15 anos que a pipoca de micro-ondas tornou-se um produto largamente consumido por boa parte da população mundial. Ainda há quem permaneça fã da versão tradicional, mas não dá para negar a conveniência de um produto que requer apenas uns poucos minutos para ficar no ponto. Eu ainda espero o dia em que haja pipoca sem aquelas indesejáveis cascas de milho que frequentemente resolvem agredir as gengivas.

Mas, por outro lado, a versão tradicional da pipoca me encanta por uma razão ímpar: a oportunidade de ver o milho se transformar em pipoca. Acho incrível o “susto” que os grãos de milho tomam quando são jogados na panela e depois, quando se levanta a tampa, lá está aquela avalanche de pipoca, branquinha, transbordando panela afora.

Esse “fenômeno” de fazer pipoca sempre me remete a uma analogia que adoro e sempre gosto de ter comigo. Trata-se do ato de sair da zona de conforto. Sabe quando a gente passa muito tempo fazendo as mesmas coisas, agindo sob os mesmos padrões e/ou gostando das mesmas coisas? E essa sensação de mesmice acaba criando uma zona de conforto tão grande em nossa mente e em nossa rotina que muitas vezes nos negamos a ousar, a mudar qualquer aspecto. Afinal, se está dando certo assim, por que mexer, não é mesmo? Eu sou do contra, acho que é preciso mudar sempre!

E mais: acho sensacional quando os grãos de milho, praticamente todos iguaizinhos, estouram e geram pipocas completamente diferentes umas das outras. Seguir o próprio caminho, estar consciente de suas escolhas e assumi-las é o mesmo que entrar como uma semente de milho igual a qualquer outra, se aventurar no óleo quente e transbordar pela panela feito uma pipoca linda, com a sua própria identidade, nem melhor, nem pior, apenas diferente uns dos outros.

Até entender a “mecânica” da zona de conforto, achava que nada que carregasse a palavra “conforto” podia ser ruim. Sim, é natural, cada um de nós nasce com a sua cota de zona de conforto, mas o que não vale é instalar um reinado nela, porque aí a chance de se tornar uma bela pipoca fica cada vez menor. E conforme a zona de conforto vai diminuindo, o ser humano abre espaço para a criatividade, os bons sentimentos e naturalmente sente-se inspirado para revolucionar vidas. Usando os termos que são tão caros a todos do mercado óptico, é o “ver a vida com novos olhos”!

Há alguns anos, estabeleci um compromisso comigo de manter-me sempre alerta às dimensões da minha zona de conforto. É um exercício quase que diário e me esforço para perceber seguir o conceito de que é preciso estar pronta para aventurar-me na panela de óleo quente, tal qual o grão de milho pronto para virar pipoca.

Quem despertou minha atenção para esse tema foi o Papa Francisco. Acompanhei pela tevê parte de sua visita ao Brasil e valeu bastante ouvir suas palavras. Acho genial que um líder com projeção mundial como ele (religião à parte, vale dizer) oriente as pessoas – seja religiosos, leigos, jovens que participavam da Jornada Mundial da Juventude naquela semana no Rio de Janeiro ou até quem passava diante da tevê e resolver escutar um pouquinho – a saírem de seus domínios encastelados e de suas inércias convenientes para adotarem a proatividade e tomarem atitudes que reformem suas vidas e principalmente as vidas das pessoas com quem se relacionam e nas comunidades em que atuam.

Fico por aqui compartilhando uma das mensagens do pontífice, com você, prezado leitor: a cultura da solidariedade é a que conduz a um mundo mais habitável e não a do individualismo. E “cultura da solidariedade é ver no outro não um concorrente ou um número, mas um irmão”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

468 ad