[Um outro olhar] A visão de volta

Maníaca por óculos, Andrea Tavares é editora da VIEW e do Blog da VIEW

Setembro chega ao fim e ficará registrado na minha vasta memória, entre outras ocorrências, como o mês em que consegui resgatar minha visão. Ainda nos anos 60, nasci com uma visão de águia. Até os 20 e poucos anos, enxergava tudo com precisão absoluta e a uma distância admirável. Até por isso e pela minha essência escorpiana, desenvolvi minha capacidade de observação. O mundo era um grande cenário que eu registrava com as “lentes dos meus olhos”.

Mas a carreira de jornalista começava e, em 1990, despedi-me (com muita felicidade) do tormento das máquinas de escrever para ingressar no universo da informática. Mesmo em era pré-PC, achava aquele computador jurássico com monitor de fósforo verde o máximo da modernidade. Até que, meses depois, percebi que algo estava muito errado quando as luzes da sala de cinema se apagaram e o filme começou a ser exibido. Minha visão tinha deixado de ser um primor.

Rapidamente, não bastava apertar os olhos para conseguir enxergar. A miopia chegou com -1.5D e avançou em progressão geométrica. Em menos de um ano, já batia os quase -4.0D. Não gostava de usar óculos, até porque não havia a oferta de hoje e tive de me conformar com um modelo redondinho de acetato roxo seguindo o estilinho do líder do Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna – na época, era o que havia de mais top nas ópticas brasileiras. Isso me fez uma escrava das lentes de contato que, na época, não eram dotadas da super tecnologia de hoje.

Eis que, em 1992, a possibilidade de operar a miopia com médicos mais que renomados gratuitamente fez brilhar meus olhos. Encarei a ceratotomia radial, o jeito mais primitivo de corrigir cirurgicamente a miopia e, por conta disso, minhas córneas têm risquinhos e marquinhas – ou, usando, o termo mais radical, cicatrizes – que são só delas, como uma tatuagem. Por anos, tive uma vida visual ótima.

Já neste século, com o mundo bem mais amigável em termos de estilo para os usuários de óculos e eu há alguns anos já militando na óptica, o uso contínuo de computador trouxe de volta o fantasma da visão borrada. Logo ficou claro que o astigmatismo (que se tratava apenas de um resíduo mínimo após a cirurgia de miopia) começava a dar as caras, acompanhado da hipermetropia. Por um lado, era tudo que eu precisava para investir na minha coleção de óculos, que hoje deve bater a casa de uma centena de peças (sem contar os solares). Mas, por outro lado, os anos passaram e a deficiência foi aumentando.

Em 2010, saí do consultório do especialista com a sensação de que teria de me conformar com a visão não tão perfeita, mesmo de óculos. O acentuado astigmatismo deixava o meu mundo todo borrado… Mas o pior é que, pouco mais de um ano depois, comecei a ter dificuldade de escrever. A tela do computador, tão minha amiga, tinha se tornado minha algoz; as letras, de pretas passaram ao cinza, e os pixels pareciam mais separados do que deviam.

Até que o publisher da Jobson Brasil, Flavio Bitelman, voltou de uma feira internacional com uma novidade: os óculos com “regulagem” instantânea de grau dotados de um botãozinho de cada lado que, ao ser girado, faz um líquido no interior da lente equacionar o melhor grau, uma inovação chamada Adlens. Provei e, ao girar o botãozinho até o final, consegui enxergar perfeitamente, mas não dei muita bola. Deixei-os na gaveta por uns meses até o dia que a visão borrada me fez lembrar daqueles óculos lá guardados. Passei a usá-los para trabalhar até que chegou a hora de voltar ao especialista.

Mal entrei no consultório, mostrei os tais óculos e disse-lhe que queria lentes para enxergar daquele jeito. Sim, os +3,75D tanto no olho esquerdo como direito, sem qualquer correção para o astigmatismo, trouxeram de volta a minha acuidade visual. Final feliz: agora eu comemoro a precisão e o conforto visual com minhas novas armações, vendo o mundo de um jeito bem mais feliz!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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