[Um outro olhar] A nobreza que inspira

Maníaca por óculos, Andrea Tavares é editora da VIEW e do Blog da VIEW

Navarra, Norte da Espanha. Menos de seis meses após conquista a medalha de bronze nos 3 mil metros com barreiras nas Olimpíadas de Londres, o atleta queniano Abel Mutai lidera a prova de cross country de Burlada. A cerca de 100 metros da chegada, confunde-se e diminui o ritmo, como se ali fosse o final da prova. Atrás dele, vinha o espanhol Iván Anaya, que se negou a tirar proveito da “falha” de Mutai: em vez de passar por ele e atravessar a linha de chegada como vencedor, avisa o queniano que havia se enganado e, diante do conflito de idiomas, percebe que ele não entende e, mesmo assim, o conduz respeitosamente à vitória, aceitando o segundo lugar.

A não ser que tivesse uma trajetória como a do sensacional atleta jamaicano Usain Bolt, que deixou o mundo de queixo caído com suas conquistas fabulosas nos dois últimos Jogos Olímpicos e sucessivas quebras de recordes mundiais, é quase certo que Iván Anaya jamais receberia tantos comentários e elogios senão tivesse praticado a nobreza do jogo limpo com seu concorrente queniano. Isso ocorreu em dezembro, mas até hoje pessoas pelo mundo afora compartilham nas redes sociais o ato de Anaya e tudo leva a crer que continuarão a fazê-lo.

Hora de virar o globo rumo aos Estados Unidos. O menino Conner, filho mais velho de uma família de White House, estado do Tennessee, hoje com 9 anos, deseja do fundo do coração poder brincar com Candey, seu irmão dois anos mais novo, portador de paralisia cerebral que não pode andar ou falar. Até que um dia, no decorrer de 2011, depara com um anúncio de uma prova de triátlon para crianças e vê aí a oportunidade de estabelecer a conexão que tanto queria com seu irmão: competir com ele.

Superadas as barreiras iniciais de adaptar os recursos para a prova, eis que é dada a largada para Conner, que nadou puxando Cayden em um bote inflável, pedalou com o irmão em um carrinho acoplado na bicicleta e correu empurrando-o no carrinho. Chegaram em último lugar, mas o sabor da conquista era tão grande que nem a maior vitória do mundo poderia substituir. Até porque, finalmente, os dois irmãos estavam brincando juntos! Conner comenta que, sem o irmão, jamais teria feito isso e Cayden não teria conseguido sem a sua ajuda. “Nós dois vencemos”, revela.

Desde então, nunca mais pararam de competir e várias medalhas de participação decoram o quarto da dupla. No final do ano, foram eleitos os atletas mirins do ano pela norte-americana Sports Illustrated, uma das mais respeitadas publicações esportivas do mundo. Sobre o porquê de não competir sozinho, Conner fala que isso seria legal, mas o que importa é o desafio de ver Cayden feliz – prova disso é a felicidade do irmão mais novo durante as provas, sempre com um sorriso iluminado no rosto.

Conner poderia competir sozinho, ser um menino vencedor, mas é quase certo que jamais obteria a reputação que alcançou mesmo chegando em último todas as provas, porque ele e seu irmão fizeram algo nobre. Da mesma forma que o espanhol Annaya. Atos nobres que movem as pessoas em volta – e hoje até as que estão ao redor do mundo por causa do alcance da internet e das redes sociais – e se tornam algo inspirador para muitas vidas.

Posso ser Pollyanna, romântica ou piegas, mas é nesse mundo de jogo limpo e atos nobres que acredito. Esse mundo de pessoas que promovem atos inspiradores e geram coisas boas a muitas outras pessoas e, assim, sucessivas correntes do bem vão se formando. Aprendi que é hora de fechar o coração quando ouço comentários ruins, manifestações pessimistas e previsões de que o mundo (ou o mercado) será pior ou cheio de trevas no futuro. Ouço com educação, mas, silenciosamente, penso que aquelas impressões pertencem a quem está falando e não serão transferidas para mim. A questão é manter o coração aberto para sempre reabastecê-lo com os melhores sentimentos a fim de seguir em frente inspirada por boas coisas, mesmo nos momentos menos favoráveis. Viva a nobreza!

 

 

 

 

 

468 ad