[Dicas & Estratégias] A sabedoria da psicologia financeira

Excesso de gastos, falta de planejamento financeiro, dívidas: às vezes, as pessoas gerem suas finanças como se tivessem incorporado Homer Simpson, o bonachão porém confuso personagem do desenho animado criado pelo norte-americano Matt Groening. Em mais um artigo que celebra a parceria entre a VIEW e a renomada instituição de educação para o varejo, o Provar, a professora Rosimara Donadio traz dicas valorosas para uma boa vida financeira.

Artigo Rosimara Donadio

De acordo com o famoso economista comportamental, o norte-americano Dan Ariely, o ser humano, apesar de ser capaz de feitos extraordinários, também é capaz de fazer coisas tolas e absurdas. O homem está inclinado a tomar atitudes que fatalmente lhe causarão problemas em longo prazo, pois foca apenas naquilo que pode trazer prazer imediato: comer demais, fugir dos exercícios físicos, abusar do álcool, gastar demais sem pensar no futuro, poupar de menos, adiar decisões importantes, enfim, uma lista infinita de atitudes que vão contra o raciocínio lógico.

Mas a natureza humana vai além disso: todo mundo carrega consigo dois sistemas internos, que brigam entre si o tempo todo. O sistema 1 representa o lado emocional, que quer o prazer imediato. Já o sistema 2 representa o lado racional, que pensa no bem-estar em longo prazo e tende a fazer as escolhas de forma mais sensata.

 

Piloto automático das soluções rápidas – Como dizem os especialistas em psicologia econômica pelo mundo afora, o sistema 1 pode ser considerado como o princípio do prazer. É como se houvesse um Homer Simpson – o icônico pai de família norte-americano do desenho de Matt Groening – dentro de cada um, que pode ser traduzido pelo lado inconsciente, guiado por hábitos e soluções imediatas e impensadas, as chamadas “heurísticas”.

Essas soluções rápidas são as que livram instantaneamente a pessoa do desprazer, buscando a gratificação instantânea e afastando-a do incômodo de ter de refletir melhor antes de decidir. O “Homer interno” representa as tendências de adiar, ceder à preguiça e à indolência, querer tudo em curto prazo, agindo em um sistema de piloto automático. O grande problema de viver sob o princípio do prazer é que se fica aprisionado, condicionado à repetição dos mesmos erros.

Para operar no sistema 2, também chamado de princípio da realidade, é necessário desenvolver a tolerância à frustração. Encarar a realidade gera frustração, já que afasta a pessoa do prazer imediato e faz sair da zona de conforto.

 

A dificuldade de mudar – Exercitar o princípio da realidade vai contra os impulsos naturais e a experiência humana de milênios, quando o ser humano precisava fazer tudo em curto prazo para poder sobreviver. Ao longo do tempo, a mente aprendeu que é mais seguro ficar dentro de um espaço conhecido, tomando atitudes conhecidas e que levarão a resultados também conhecidos, já que o desconhecido pode causar tanto desconforto que paralisa diante da perspectiva da mudança e da tomada de novas atitudes em direção aos objetivos que realmente se quer atingir.

Os resultados da vida de cada um são baseados nos hábitos diários. Se os hábitos são prejudiciais aos planos e aos sonhos, é preciso reunir forças para modificá-los. Nessas horas, vale lembrar o gênio Albert Einstein que, sabiamente, afirmava não ser possível obter resultados diferentes fazendo as mesmas coisas.

Para mudar os resultados, o caminho é deixar de lado a procrastinação (isto é, o hábito de adiar) e começar já a mudar os velhos hábitos. Mesmo que esse início seja feito de pequenas ações diárias, que vão se incorporar à rotina e se transformarão em novos hábitos, direcionando aos reais objetivos.

 

Como fica a vida financeira? – Existe um discurso racional que, certamente, todo mundo já ouviu quando o assunto é dinheiro: o de que se deve planejar o orçamento, fazer planilha de controle de gastos, diversificar os investimentos de forma a diminuir os riscos, ter um colchão financeiro para imprevistos, fazer um fundo de previdência e seguro do patrimônio etc.

Tudo isso é de extrema importância, mas será que é fácil de ser colocado em prática? Levando-se em conta que o ser humano é movido, sobretudo, por impulsos e emoções, a resposta é “não”. Segundo um dos mais célebres investidores do planeta, o norte-americano Warren Buffett, “para ter sucesso no mercado financeiro, basta ter um QI de 30. O que importa mesmo é administrar os impulsos”.

Portanto, quando se trata de finanças pessoais, o Homer interno está sempre a postos, fazendo gastar sem limites, entrar em dívidas, adiar a decisão de gastar menos ou até mesmo de colocar em prática novas formas para ganhar mais ou para investir com mais sabedoria. Em resumo, adiar é palavra mais que comum no que diz respeito às finanças, afinal, quase todo mundo acredita que “amanhã” terá mais força de vontade para poupar, buscar outras fontes de renda e de investimento, da mesma forma que terá muito mais força de vontade para começar o regime ou ir à academia “na segunda-feira”.

 

A cultura do “jeitinho” – Além da tendência natural do ser humano de buscar tudo o que dá prazer (consumo é sinônimo de prazer imediato!), há ainda o contexto social. A cultura brasileira estimula o “jeitinho” para tudo e nisso está incluído o “gastar mais agora e ver o que ocorre depois”.

Há ainda a história econômica do país: há pouco mais de duas décadas, por exemplo, se os brasileiros não fizessem compras assim que recebessem seus salários, no dia seguinte não comprariam mais a mesma quantidade de bens. Diante de anos de inflação crônica, fica o incentivo ao imediatismo para consumir e não para poupar.

Como se não bastassem fatores psicológicos, culturais e históricos, há ainda um empurrãozinho dos profissionais de marketing que, cientes de como funciona o sistema 1, aquele regido pelo princípio do prazer, criam todo o tipo de armadilhas, colocando em prática as regras da chamada psicologia do consumo. Sem falar ainda das influências de familiares e amigos, do medo, das crenças limitantes etc. É muita coisa!

Com todos esses fatores atuando em conjunto, as finanças pessoais dos brasileiros não andam lá essas coisas. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de 2015, realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o número médio de famílias brasileiras endividadas bateu os 61,1% em 2015. E um detalhe interessante: 76,1% dessas dívidas se concentram em gastos no cartão de crédito, ou seja, em consumo de curto prazo.

 

Contas em dia e poupança – Para sair da espiral financeira negativa é preciso começar dando alguns passos em direção à mudança: compreender como a mente funciona, reconhecer os erros mais comuns e mais constantes relacionados a finanças, identificar as crenças limitantes e manter em mente o firme propósito de mudar. Para isso, é necessário ter foco e autodisciplina, colocar as metas no papel, ter um plano de ação e se comprometer a segui-lo.

É fácil fazer isso? Não, porque os velhos hábitos tendem a se perpetuar. A mente humana tende a permanecer em sua zona de conforto: manter as velhas crenças limitantes, baseadas no medo da mudança, de forma a evitar o incômodo de se readaptar a algo que hoje é desconhecido. Para mudar, é necessário ter disciplina. É fácil? A resposta também é negativa. Porém, há apenas duas alternativas: viver com o incômodo da disciplina ou a eterna dor do arrependimento. É uma questão de escolha.

 

Ações para a transformação – A mudança de hábitos financeiros é implementada aos poucos, por meio da alteração de pequenas atitudes diárias. E o pensamento de que uma pequena decisão em favor da própria saúde financeira não fará nenhuma diferença no final do mês é totalmente equivocado. Essas pequenas ações diárias vão se incorporando à rotina e, aos poucos, se transformarão em novos hábitos, muito mais saudáveis do que os anteriores. Por exemplo: reservar uma quantia pequena para poupar diariamente, mesmo que sejam R$ 5, constrói o hábito de poupar.

Também é importante buscar novas alternativas de investimento, pesquisar os produtos oferecidos pelos “shopping centers” financeiros, pois muitos proporcionam rentabilidade superior àquela oferecida pelo banco em que se tem conta e com a mesma segurança.

Mas, antes de mais nada, é importante ter clareza sobre o que realmente se quer atingir, clareza sobre qual é, de fato, a meta financeira – por exemplo, uma renda mensal de R$ 10 mil. Estabelecer uma meta clara não é fácil: a maioria das pessoas não se desenvolve financeiramente por falta de clareza sobre que objetivo deseja alcançar.

Com o objetivo estipulado, é hora de colocar a criatividade para funcionar e planejar o que deve ser feito para atingir a meta: talvez haja uma atividade para complementar a renda principal. De qualquer forma, o importante é colocar os planos em ação. A maioria das pessoas tem muitas ideias, mas não as colocam, de fato, em prática.

As pessoas bem-sucedidas têm algumas características em comum: iniciativa para buscar novas oportunidades; persistência; firmeza das metas mesmo diante do primeiro obstáculo; busca pelo conhecimento e construção de uma rede de contatos ligada a seu propósito. Além disso, realizam o acompanhamento sistemático dos resultados, fazendo ajustes periódicos em sua rota. Se há dúvidas por onde começar, vale buscar profissionais no mercado e ter em mente que, para mudar a vida financeira, a palavra de ordem é ação!

 

 

Mestre em Economia pela Faculdade de Economia e Administração (Fea) da Universidade de São Paulo (Usp) e doutora em administração, Rosimara Donadio possui certificação em coaching financeiro e psicologia econômica. É professora dos cursos de MBA da Fundação Instituto de Administração (Fia) e atua também como coach financeira e consultora de finanças pessoais.

 

 

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